...sentado na cadeira, com a barriga cheia, que
protubera por cima do meu sexo, que esconde meus pentelhos, percebo que
só tenho ela, barriga e cadeira, então me faço satisfeito, porém, se
convidasse alguém para minha casa, onde esse alguém sentaria? como
faria, eu ficaria, em pé? sentado, onde? na cama, na janela, na pia? na
mesa, falta de educação seria? até porque estou pelado, apesar de não
estar no aguardo, mas se estivesse, se esse fosse compromisso do dia, o
que faria, antes me vestiria, apagaria o baseado que já está apagado,
acendo, levanto, escovo os dentes ou uso listerine, vou me olhar no
espelho, cacete, estou pelado, de pau duro inclusive, será que me
masturbo? masturbar as vezes acalma, logo após a ofegancia que precede o
gozo, que me faz pensar... ofegancia, essa palavra existe, deve
existir, ou no mínimo estar no secto daquelas palavras que não existem
mas deveriam, assim como aquelas que existem mas não podem ser tocadas,
como a saudade, como o wifi, como será que seria o wifi? primo do
wireless, irmão? será que eles tem sentimento, mesmo sem existir, será
que a saudade tem sentimento, será ao menos que ela quer dizer isso, vai
que a gente deu o nome do ódio de saudade, será que por isso a sentimos
com tanto pesar, com tanta força, me fez pensar de verdade nessa
possibilidade, o bluetooth deve ser um parente distante... mas, voltando
ao raciocínio ilógico, estou pelado, com um baseado apagado pronto para
ser aceso, um espelho, todo o aparato de higiene pessoal a postos, e...
caramba, acabei de perceber que a porta de entrada não está chaveada, e
se, esse alguém que não está vindo, mas poderia estar, decidir
simplismente colocar a mão na maçaneta e abrir deliberadamente a porta
pela confiança que tem, nos anos que temos de amizade, bom, seria
natural, ou deveria ser, porque eu sempre estou pelado e a grande
maioria dos meus amigos e amigas já me viram pelado, não sei se viram,
mas sei que passei pelado pela frente deles, e passo sempre que posso,
sempre, foi assim que nasci, assim que sou, também não sou nenhum
retardado de sair pelado pelas ruas... taí, retardado, se eu fosse
retardado, talvez tivesse acertado em várias escolhas erradas que fiz,
por não ser, talvez não tivesse uma fala tão preconceituosa dentro do
meu discurso, retardado... ninguém nunca pensou o que quer dizer a
palavra retardado, nem o médico que inventou essa palavra que hoje é
usada a esmo, os retardados são legais, acredite em mim, melhor que
muita gente que se diz normal, tenha medo das pessoas normais, digo,
normais normais, sem nenhum ruído, pessoas perfeitinhas me metem medo,
eu tenho pelo menos, fiquei confuso, acendi o baseado... parece que vi
alguém mexer na porta, a chave parece que balança... será que é o cara
da tv a cabo, minha sócia para reunião, a vizinha pedindo açúcar, tô
entrando em parafuso, será que é assim que os retardados se sentem? é
rico, muito rico, a mente sendo explorada, mas, e se, da porta pra fora
não passar? é algo a se pensar, e se eu olhar lá pra fora e enxergar
aqui dentro... já sei, continuo imóvel, bom, nem tanto, vou fazer um
chá, o sol parece que não saiu lá fora, melhor ficar por aqui, até
alguém decidir chegar... DOUGLAS CAMPIGOTTO