o tempo que só passa, só a Lua sempre cheia cheia de nada quando some o Sol que brilha pra esquentar as estrelas que brilham até morrer o Universo de camarote vendo tudo acontecer quem diria as nuvens abaixo disso tudo acima da gente o tempo que só passa, só Douglas Campigotto
Por você eu faço tudo, me anulo, pulo
muro, saio no escuro, sou mole, sou duro, por você, sou capaz de mais,
de menos, nunca mais ou menos, ojeriza, tabaco, raiva, paixão, sou você,
sou nós, nossos laços, por você sou por mim, faço tudo, pelo não pelo
sim. Douglas Campigotto
Na mesa do bar Não te encontrei Não vi ninguém Com o garçom Fiz confissão Na mesa do bar Com meus amigos Chorei amores Joguei com a sorte Perdi a mão Já fui traído Já fui ferido Brinquei com a morte Sofri de paixão No fundo do copo Te procurei Não te achei Caí no chão Não te esqueci Eu me perdi Te peço perdão
...pareço uma barata tonta procurando o que não fazer, será a depressão se aconchegando em mim, será reflexo de um amor correspondido que já não se faz corresponder, serão minhas contas pagas, meu banho não tomado, pijama amarelado, os dentes escovados, as coisas que comi, o telefone que toca incessantemente e que não consigo atender, amigos que deixei de visitar, peças que deixei de assistir, pessoas que fiz questão de ver, talvez o telefone não toque tanto assim, talvez, nem tenha tantos amigos, muito menos, dentes para escovar, nem contas para pagar, se é depressão não sei, pressão, talvez, de mim mesmo para comigo, é tanta coisa, tanto pra fazer, tanto, que quando penso nem levanto, coisa de gente normal, ordinária, gente, sim, eu sou ordinário...
Sou pego de surpresa por pensamentos que fiz questão de esquecer, tanto, que me fazem lembrar, pensamentos esses que me levam para um lugar, onde não somos mais nós, sequer somos, então eu lembro, de esquecer novamente.
dentro do metro um telefone toca te procuro sem achar o quanto me toca mesmo apenas seu toque em qualquer volume adoro seu tocar em qualquer momento nesse me contento com o toque do teu celular Douglas Campigotto
...no corredor esperando por um leito, enquanto babava, entre enfermos,
enfermeiras e muita gente de contas pagas, tendo que passar por mais uma
prova, sem poder se jogar fora, sem poder, pacientes terminais olhavam
para o nada, como que vissem uma passagem pra fora dali, de si, qualquer
coisa menos o agora, com luvas infladas feito bola, não é possível
brincar, aos pouco fui entendendo, calcanhares esfolados de tanta cama,
bolha de sangue, entendi a sonda, vi o sebo, convivi com a murrinha, e
aquele cheiro, o hálito que já não enjôa, ojeriza de outrora agora me
faz pensar, um pensamento triste, não há nada de prático numa hora
dessas, muitas práticas, táticas do jogo. Até hospital tem seus
parasitas, seus hóspedes ilustres, os habituês, na cadeira de rodas
sondava quem ia passando e indagava na medida que sua desconfiança
crescia, "tem um pacote de bolacha aí?!" alguns diziam que ele havia
quebrado a própria perna, é rir pra não chorar, tanta miséria, tantos
guerreiros, tantos, vejo Lulas, Josés, Reinaldos, ovacionados como
bravos, saibam que Antonio é foda, comeu pão sovado, feito rato, num
canto, ele e tantos, bons, mas sem os melhores acompanhando, sem
dignidade, implorando por exames, de cabeça raspada, costurada, no fio
na navalha, de fraldas, punk! Nada de colorido, nem o lençol, apenas as
feridas, expostos, fracos, empilhados numa sala, um feixe de sol entra,
mas o frio não passa, sorte de quem vai, sofre quem fica, pena de quem
tenta, mas não consegue partir, passar de porta em porta, ver gente boa,
gente má, maltratada, magra, sem afeto, com expressão de nada, gente
velha, gente nova, gente, uma garota que aparenta 13, outro acabou de
casar, o gigante, vizinho de quarto, alemão, só faz esperar, os gemidos
de dor são uma sinfonia dispensável, para quem escuta, pra quem sente é
necessário, uma alívio temporário, as vezes imaginário, um alento em
meio a tanto sofrimento, os sorrisos desaparecem a medida que as luzes
se apagam, alguns poucos conseguem descançar, é então que constato, que a
tristeza sabe falar...
Meu pai está morrendo, nesse exato instante, enquanto escrevo, ele morre um pouco, não é possível fazer mais nada, nesse momento, seu cérebro, do tamanho de uma maçã, cresce o tumor, começou no reto, por caminhos tortos, tortuosos, no pulmão se instalou, como se viajasse através do ar, encontrou na garganta um lugar pra morar. Aos poucos foi expandindo seu território, dominando aliados próximos, não podíamos imaginar, uma doença tão voraz, com nossas poucas defesas foi violenta, de forma abrupta, sem pedir licença, conquistou o cérebro, que está sucumbindo a sua presença, o topo da pirâmide foi dominado, onde a ajuda não pode chegar, agora todos esforços são em vão, devagar e de forma silenciosa, derrubou esse touro, foi certeira, cabeça dura não pode com essa doença traiçoeira, nossa última esperança, depois de muitos coices, olés e espetadas, chegou a hora, o touro não enxerga mais nada, evacua na hora errada, já não fala, não sabe se o hoje é o agora, nem porque chora. A pouco contava causos, com um pé na morte, nos fazia morrer de rir com suas piadas infames, que ironia, de vista vendada, as lágrimas escorriam em câmera lenta, como se nos dissessem, não mereço, não fiz nada... Ninguém fez meu pai, ninguém, nem eles, nem nós, nem você, nem eu, fizemos o que dava, vivemos vendados por nós e por tantos, aos trancos e barrancos nos entendemos, tive que te odiar pra te amar, crescer pra te entender, te conheci no leito, um pouco antes talvez, naquela inesquecível viagem que mudou nossos rumos, sempre soube que era o mais forte, sempre, o mais rígido também, mas, nunca imaginei que de você viesse toda minha pirraça, mamãe contagia, mas você, nostalgia, leva na graça... na grosseria, no medo, na raiva, esses eu conheci bem, que o diga, seu vizinho de quarto, que com a enfermeira faltou ao respeito, e você mesmo sem conseguir abrir os olhos, esbravejava, os presentes o admiraram por falar o que todos queriam, mas ninguém falava, terminou o sermão dizendo, "e se você não se desculpar agora, levanto daqui e te encho de porrada!!!", detalhe, estava com as pernas praticamente atrofiadas, vai vendo... Baixinho, parrudo, enfezado e engraçado, mil histórias, mil faces, mil coisas, acho que não vai dar pra conhecer todos “você, perdemos algum tempo ali atrás, ah se o tempo pudesse voltar pra gente dar novas cabeçadas. Se tiver que ir, vai em paz, chega de sofrer, leva meu amor, perdão e gratidão, nos vemos ali na frente, em outro ano, em carne, osso, em nada, alma penada, de diferentes tamanhos, amo você.
...me vejo reproduzindo coisas das quais nunca li, nem nunca soube existir, me sinto torto, afoito por saber mais daquilo que não sei, sem saber, talvez reproduzirei com uma dona qualquer, que vai passar a qualquer momento, por aqui ou por lá, sem ser redundante como eu, mas espero suas ancas redondas e cochas torneadas, essa coisa de falar do que não sei anda dando certo, tendo em vista que ninguém sabe, então, me torno um sabido, adorado por todos, sem precisar de adornos, capas, apenas seguidores, que reproduzem incessantemente, as coisas das quais nunca li, me sinto torto...
pensando na raiva que você me faz na falta que você me traz na fala que são apenas palavras nas minhas e nas suas falhas não sei se te quero tanto faz bem até não fazer mais transborda sem ter pra onde nem pela frente nem pelas costas nada satisfaz o ouvido já não esconde a boca só faz falar as roupas que já não servem os pratos principais ainda quero mas tristemente desconheço sinceridade nesses dias de sol escuro falta claridade lembro de como somos fico pensando acho que está ficando tarde para brincar Douglas Campigotto
não sou de explicações sou de dedução não quero a sua verdade quero a nossa me faça perguntas te darei respostas não as que você gostaria de escutar suas palavras seduções já não enganam não quero conversar quero você de quatro muito vinho muito cigarro não preciso estar por cima quero sua alma me ache um monstro me taxe de louco me tire pra brincar não provoque minha loucura não pergunte não sou de explicar.
...bebo pra lembrar de ti, nossos momentos, que já nem lembro, do tanto que bebi, tanto, que nem me despedi, fui saindo, aos poucos, fui percebendo, ranhuras nas paredes, pareciam arrahões, saí devendo, minha dívida foi o troco, não sei se saí, se você foi chegando, mas te vi longe, talvez estivesse se escondendo, lembro desse momento, mas do tanto que bebi, não lembro, me despedi da minha dívida, não tinha troco, saí devendo, só o que lembro, são das ranhuras nas paredes...
Foi aonde? Onde? E essa roupa? Perfume novo? Ta com o cabelo molhado porque? Ah tava chovendo... O que? Esse batom na minha gola? ... Não queira virar o jogo!!!